REFORMA TRIBUTÁRIA

Tarcísio chamou Bolsonaro de líder após inelegibilidade, mas decisão de apoiar reforma administrativa atraiu hostilidades de aliados no PL.
O primeiro desentendimento público entre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu afilhado político, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ocorreu com o governador sendo atraído a um encontro marcado para hostilizá-lo e que serviu para escancarar uma crise com o bolsonarismo que já vinha sendo desenhada em São Paulo.
Tarcísio apresentava dificuldades para lidar com deputados bolsonaristas em São Paulo há semanas, por insatisfações que vão da não nomeação para cargos-chave na máquina a questões ideológicas, mas vinha contando com ajuda do clã Bolsonaro para acalmar os ânimos.
Porém, o movimento de costurar um acordo com a oposição para votar a reforma tributária, sob o discurso de que ela seria de “interesse do Brasil”, foi visto como um primeiro voo solo do governador na construção de uma imagem de estadista, com fins eleitorais, sem a bênção prévia do padrinho.
Tarcísio está em Brasília desde terça-feira (5/7) para discutir a reforma tributária, projeto ao qual vinha demonstrando apoio parcial desde o começo do ano. Nessa quarta (6/7), após se reunir com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), ele se convenceu a apoiar a proposta e deu uma entrevista ao lado do petista.
A expectativa da equipe de Tarcísio era que eventuais descontentamentos com bolsonaristas após a decisão pudessem ser contornados diante do apoio direto de Bolsonaro.
No mesmo dia, à tarde, depois de medir como elevado o ruído entre aliados, o governador procurou o ex-presidente para explicar sua decisão e pedir o apoio à proposta, que era tido como certo após uma conversa. A reunião entre os dois foi, então, acertada para a manhã dessa quinta (6/7).
Reunião com Bolsonaro
Padrinho e afilhado político já tinham se encontrado uma vez após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornar Bolsonaro inelegível, na semana passada, mas aquele seria o primeiro encontro para tratar de um tema prático.
Nas redes sociais, Tarcísio havia dito que a liderança de Bolsonaro como representante da direita era “inquestionável”. Entretanto, na reunião, ele quis comunicar o ex-presidente de uma decisão que havia tomado por conta própria, sem que tivesse consultado o “líder”, na interpretação de um bolsonarista.
Entre os aliados de Bolsonaro, antes mesmo de a reunião ocorrer, ainda na quarta-feira (5/7), a mensagem que vinha sendo transmitida era de que o apoio à reforma seria “um desastre”, mas que a posição do governador não poderia ser considerada uma surpresa. Na visão deles, Tarcísio já vinha adotando a postura de agradar o centro e a esquerda.
Convite para falar com toda a bancada
Na manhã de quinta-feira (6/7), parte da bancada do PL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) foi convocada para participar da reunião em Brasília, que já seria de todo o partido – e não apenas entre Bolsonaro e Tarcísio. Mas o governador, de acordo com aliados, acreditava que falaria apenas com o ex-presidente.
Na hora do encontro, Tarcísio foi emparedado por Bolsonaro, que não quis ouvir argumentos favoráveis à reforma e o chamou a participar do encontro com o partido todo. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, fez coro ao convite e convenceu o governador a se dirigir à reunião e defender sua posição de forma pública. Tarcísio aceitou.
Na reunião, o erro estratégico ficou claro. Os deputados bolsonaristas já tinham fechado questão contra a reforma e não estavam ali para debater com o governador. Uma pessoa próxima a Tarcísio disse que o entendimento foi de que a lógica do “nós contra eles” estava em prática, e Tarcísio se viu, pela primeira vez, como “eles”.
Tarcísio confrontado
Parlamentares disseram que Tarcísio cometeu o equívoco de levar para nível nacional a atuação que tem adotado na Alesp, onde tem determinado à base governista que aprove seus projetos rapidamente sem alterações nos textos. Foi o caso do reajuste dos salários dos policiais, no qual o próprio governador admitiu ter falhado na articulação política.
No entanto, o que assegurava o apoio dos bolsonaristas a Tarcísio na Alesp era o próprio Bolsonaro. A postura do ex-presidente durante a reunião dessa quinta deixou os integrantes da ala ideológica mais à vontade para expor a insatisfação que carregam desde o início do ano.
Integrantes da bancada paulista do PL chegaram a dizer que Tarcísio chorou diante da hostilidade. Auxiliares do governador reconheceram que ele ficou “chateado” e muito bravo com o tratamento, mas negaram as lágrimas.
Tarcísio não falou com Bolsonaro no restante do dia. Os auxiliares mais próximos do governador evitam falar em “ruptura” ou qualquer consequência mais duradoura do episódio, mas ainda não está traçada a estratégia de reaproximação.
Uma pessoa próxima ao governador lembrou, entretanto, que Bolsonaro não tem histórico de reatar alianças com pessoas que entraram em sua mira, e que as “pazes” com Tarcísio, se ocorrerem, serão um movimento ainda inédito do ex-presidente. Fonte (Metrópoles).