Saúde mental: Estados e prefeituras ignoram política de tratamento do governo e seguem modelo antigo

SAÚDE

Hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas não contam com aval de especialistas e entidades de psiquiatria

Brasil conta com 2.872 CAPs, modelo que prevê tratamento sem retirar paciente do seu cotidiano
Brasil conta com 2.872 CAPs, modelo que prevê tratamento sem retirar paciente do seu cotidiano — Foto: Pablo Jacob

O Ministério da Saúde tem enfrentado resistência de estados e municípios para colocar em prática o compromisso de fechar as portas de hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas, estruturas que recebem pessoas com distúrbios mentais e dependentes químicos. Enquanto a pasta comandada por Nísia Trindade investe em alternativas, o modelo, considerado retrógrado por especialistas e entidades de psiquiatria, segue recebendo financiamento público das administrações locais. Hoje, a abordagem recebe recursos de todos os estados e do Distrito Federal.

O modelo também tem apoio de prefeituras. No fim de novembro, por exemplo, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, afirmou em uma rede social ter determinado à Secretaria Municipal de Saúde que preparasse uma proposta para “implantar no Rio a internação compulsória de usuários de drogas”. A decisão do prefeito vai na contramão da legislação atual, que prevê a internação compulsória para tratamento de saúde apenas em caso de decisão médica, não podendo ser imposta por agentes estatais. Outra possibilidade é se a pessoa estiver cometendo algum delito. Nesses casos, o abrigamento é uma medida socioassistencial, excepcional, temporária e voluntária.

Inconstitucional

A postagem de Paes foi respondida pelo Ministério Público Federal, que enviou uma nota técnica ao prefeito destacando que a proposta é inconstitucional e traduz uma medida higienista, além de ser contra a dignidade do ser humano. Questionada, a Prefeitura não respondeu se a medida será mesmo implementada.

Entre os locais onde as internações ocorrem estão as comunidades terapêuticas, geralmente localizadas em sítios ou fazendas na zona rural. O tratamento costuma ser baseado na abstinência e trabalho forçado, com a internação podendo durar até seis meses. Segundo estimativas da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (Febract), cerca de 5 mil unidades funcionam no país, que contam com financiamento público para se manter.

Como estão fora da alçada da Saúde, esses centros não precisam passar pelo controle, fiscalização e análise do SUS. Também não é obrigatória a atuação de profissionais de saúde nesses locais.

O compromisso de reduzir a quantidade dessas instituições e ampliar políticas de saúde mental alinhadas aos princípios da reforma psiquiátrica foi firmado pela ministra assim que assumiu o cargo, ao criar o Departamento de Saúde Mental. Neste ano, o órgão ampliou em 27% os investimentos na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) em 2023 e construiu novos CAPs, modelo que prevê tratamento sem retirada do cotidiano.

Desde que foi aprovada em 2001, a Lei da Reforma Psiquiátrica estruturou a política de saúde mental no Brasil com base no fechamento de leitos em hospitais psiquiátricos e no desenvolvimento da Raps, que oferece cuidados interdisciplinares, em liberdade e próximo da residência de quem recebe esses cuidados.

— Com tantas opções que temos atualmente, não cabe mais recorrer a um modelo que promove a exclusão do paciente. É importante ressaltar que hoje em dia já existem leitos na Raps e em hospitais gerais, afirma o psiquiatra e ex-gestor de Saúde Mental do SUS-DF, Augusto Cesar Costa.

Alternativa

De acordo com a pasta, apesar da coexistência dos dois modelos, gestores municipais têm se mostrado empenhados em ampliar o número de CAPs. “Só no ano em curso, já foram habilitados 42 novos CAPS, 55 Serviços Residenciais Terapêuticos, quatro Unidades de Acolhimento e 159 leitos em hospital geral. Esses serviços foram solicitados por gestores municipais que, a partir de um diagnóstico de situação em saúde, constataram a necessidade de implantar novas modalidades assistenciais”, diz, em nota.

Hoje, o Brasil conta com 2.872 centros desse tipo, com unidades específicas voltadas apenas para crianças e adolescentes, dependentes químicos ou pessoas adultas com distúrbios psiquiátricos. A avaliação de pessoas do alto escalão do ministério é que o atual tamanho da Raps ainda não dá conta de todas as pessoas que precisam do atendimento em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, a coexistência das comunidades terapêuticas seria necessária para não sobrecarregar a rede. Para o próximo ano está prevista a abertura de 200 novos CAPs.

O próprio governo federal mantém uma política dúbia sobre o assunto e, enquanto o Ministério da Saúde se propõe a acabar com tratamentos baseados na internação e no isolamento, o Ministério do Desenvolvimento Social segue investindo em comunidades terapêuticas. Das estimadas 5 mil unidades no Brasil, 602 são financiadas pela pasta.

São 14.982 vagas pagas ao redor do país, e esse número deve aumentar: em agosto, uma portaria assinada pelo ministro Wellington Dias autoriza a ampliação do número nos próximos três anos.

*Fonte: O GLOBO

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