As dúvidas sobre o Google que assombram especialistas, confira matéria na íntegra

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As dúvidas sobre o Google que assombram especialistas | Guilherme Ravache | Valor Econômico
As dúvidas sobre o Google que assombram especialistas | Guilherme Ravache | Valor Econômico

À medida que se aproxima a votação da nova lei para regular a atuação de big techs como o Google no país, aumenta a preocupação de pesquisadores, pesquisadores, jornalistas e especialistas em audiência da imprensa brasileira.

Duas perguntas tem gerado crescente temor entre pesquisadores, jornalistas e especialistas em audiência:

1) O Google limita ou tem realizado testes no Brasil para limitar o alcance de conteúdo noticioso em suas plataformas (Discover e Search)?

2) O Google de alguma maneira prioriza seus próprios conteúdos em resultados de busca e Discover?

Na terça-feira da semana passada, a coluna encaminhou ao Google estas mesmas perguntas e recebeu a seguinte resposta na sexta-feira:

1) “Atualmente não temos nenhum teste no Brasil sobre este tema”.

2) “Estas alegações não correspondem à realidade, como fica comprovado pelo fato de os links para o Blog do Google também estarem bem posicionados em ferramentas de pesquisa de concorrentes. Não alteramos manualmente as listas de resultados para determinar a posição de uma página específica. Nossos sistemas de ranqueamento se aplicam de forma consistente para todas as páginas da web, incluindo aquelas administradas pelo Google. Os administradores dos nossos websites não possuem qualquer conhecimento especial sobre como nosso sistema de ranqueamento funciona. Eles apenas seguem as melhores práticas de otimização de conteúdo para ferramentas de busca, como qualquer outro site pode fazer”.

Mas alguns fatores têm colocado em xeque a posição oficial do Google:

  • Primeiramente, porque a audiência de diversos veículos tradicionais têm apresentado queda considerável nos últimos meses.
  • Segundo, porque o Google realizou testes em fevereiro para limitar o alcance de notícias no Canadá, onde está em discussão uma lei para regular a atuação das big techs, a exemplo do que também acontece no Brasil.
  • Terceiro, porque o conteúdo do próprio Google combatendo a PL 2630, que visa regular as big techs no país, tem ganhado posição de destaque nas buscas.
  • Finalmente, e-mails, prints e relatos obtidos pela Folha, além de um levantamento do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indicam que o Google de fato estaria interferindo nos resultados das notícias.

Tráfego e receita em queda

Diversos veículos de imprensa no país têm reclamado da queda de tráfego nos últimos meses, particularmente do Discover, ferramenta do Google que sugere notícias em dispositivos usando Android.

Nas últimas semanas, o movimento tem sido intensificado. O Google sempre negou interferir nos resultados de suas plataformas. A empresa tem dito aos veículos que a queda acontece porque os sites afetados são tecnicamente inferiores aos concorrentes.

Além do recente caso do Canadá, uma investigação realizada pelo Wall Street Journal, publicada em 2019, com mais de 100 entrevistas, afirmava que o Google usa listas de bloqueio, ajustes de algoritmo e um exército de contratados para moldar o que você vê.

Segundo a reportagem, “longe de serem programas de computador autônomos indiferentes à pressão externa, os algoritmos do Google estão sujeitos a ajustes regulares de executivos e engenheiros que estão tentando fornecer resultados de pesquisa relevantes, ao mesmo tempo em que agradam a uma ampla variedade de interesses poderosos”.

Google determina a sorte de veículos

Por uma série de erros estratégicos dos veículos de imprensa nas últimas décadas, mas principalmente pelo avassalador poder financeiro das big techs, veículos de imprensa se tornaram reféns do dinheiro e do tráfego do Google e da Meta.

O problema é que existe uma relação de poder completamente desequilibrada. O conteúdo noticioso representa menos de 3% das buscas do Google e não chega a 2% do faturamento da empresa.

De acordo com um relatório da NERA Economic Consulting (encomendado pela Meta), “o conteúdo de notícias dos editores tradicionais é de baixo valor para Meta e está em declínio, enquanto os editores se beneficiam do tráfego de aplicativos de mídia social”.

Segundo a NERA, “O conteúdo do editor de notícias desempenha um papel economicamente pequeno e decrescente na plataforma do Facebook, com links de notícias respondendo por menos de 3% do que os usuários veem em seus feeds do Facebook”.

Ainda segundo o relatório, “o fato de a Meta obter pouco valor econômico do compartilhamento de conteúdo de notícias no Facebook explica por que sua disposição de pagar por conteúdo de notícias é, na maioria dos casos, zero”.

Mudança de posição

O que o relatório falha em mencionar é que, até 2019, a empresa tinha uma posição bastante diferente. “As pessoas querem mais notícias locais e as redações locais estão procurando mais apoio”, escreveu em 2019 Campbell Brown, vice presidente de parcerias da Meta, quando anunciou o compromisso de três anos da empresa e um investimento de US$ 300 milhões com “programas de notícias, parcerias e conteúdo” globais.

Desde 2019, após sucessivos embates com a mídia e o que Mark Zuckerberg afirmou ser um tratamento injusto por parte dos veículos, a Meta rompeu seus laços com os veículos e gradualmente reduziu o peso das notícias em sua plataforma, reduzindo o alcance do conteúdo noticioso.

A ruptura mais simbólica provavelmente foi o encerramento do Instant Article em abril deste ano. O Instant Article era uma aba dedicada às notícias no Facebook e já foi uma das principais fontes de receita de muitos veículos digitais.

Em outubro passado, o diretor de política global da Meta, Kevin Chan, diante da Câmara dos Comuns canadense, também fez ameaças de impedir a circulação de notícias no Facebook, a exemplo do Google.

Google tem domínio absoluto e faltam concorrentes

Se por um lado os veículos de imprensa são irrelevantes para as big techs, a recíproca não é verdadeira. O Google se tornou tão poderoso que suas escolhas determinam quem sobrevive e quem fecha as portas na imprensa. E se passado os editores ainda poderiam se refugiar no Facebook, hoje isso se tornou impossível, já que a plataforma limita o alcance do conteúdo jornalístico.

Com a retirada da Meta do universo das notícias, o Google se tornou ainda mais massivo. A gigante detém mais de 90% do mercado de buscas, controla o sistema operacional de mais de 90% dos celulares no Brasil, e segundo a SimilarWeb, 78% do mercado de navegadores é dominado pelo Chrome, também do Google. Em 2022, o Google faturou R$ 1,28 trilhão, com 79% do valor vindo de anúncios.

Existe um risco ainda maior, já que grande parte dos veículos, particularmente as publicações regionais e os independentes, têm 100% de suas receitas atreladas ao Google. E estes grupos também viram uma queda acentuada da receita publicitária vinda do Google nos últimos meses. A companhia tem alegado aos editores uma piora do cenário econômico no país para explicar a baixa.

Basta observar o mercado para perceber como o domínio de Google e Meta seguem estáveis mesmo após tanto tempo. Nos últimos anos, todas plataformas de streaming, até mesmo a Netflix, passaram a veicular publicidade digital. Amazon e Apple gastaram bilhões para entrar no segmento de publicidade. Surgiram até novas plataformas como o TikTok, e mesmo assim Google e Meta vão capturar juntos 48,4% de toda a receita de anúncios digitais dos EUA neste ano (28,8% para Google e 19,6% para Meta).

O número é abaixo dos 54,7% em seu pico em 2017 (34,7% para Google e 20,0% para Meta), segundo dados do Insider Intelligence, mas em um universo cada vez mais povoado de opções de publicidade digital, se nem mesmo as gigantes Apple, Amazon e Netflix conseguem roubar uma fatia considerável da publicidade do Google e da Meta, quais as chances dos editores?

Impossível viver sem o Google

Segundo os editores, é este domínio absoluto que torna inviável escapar do controle do Google. “Se todos os veículos se unissem e tirassem o conteúdo do Google, ainda teríamos os sites que copiam o nosso conteúdo levando tudo isso para o próprio Google”, diz o CEO de um grupo de mídia. “Além disso, o Google traz mais de 75% do nosso tráfego.”

Cada vez mais a sorte dos veículos de imprensa está nas mãos do Google e seus algoritmos. Na reportagem “Como o Google está sufocando o jornalismo independente na América Latina”, no Columbia Journalism Review, José Maria León Cabrera afirma que a influência e dinheiro da gigante de buscas se tornam um problema, particularmente na América Latina.

Apesar de investimentos de mais de R$ 1,5 bilhão realizados pelo Google em veículos de imprensa nos últimos anos, a própria lógica dos algoritmos se tornou uma barreira imensa para o setor.

Manter os padrões de SEO do Google é caro. Cada vez mais são veículos voltados para o lucro, e não para o jornalismo, que levam vantagem. “Muitos veículos independentes não conseguem cobrir esses custos, gerando um ciclo vicioso, mas óbvio: sites com baixo desempenho atraem menos tráfego, menos tráfego significa menos anunciantes, menos anunciantes significa menos estabilidade financeira”.

“No entanto, a pior consequência desse padrão nefasto é o fato de que muitos veículos que produzem investigações aprofundadas, revelando verdades desconfortáveis, responsabilizando os poderosos e focando em indivíduos e populações sub-representados estão recebendo cada vez menos leitores. Menos leitores significa menos anunciantes, o que significa menos financiamento, o que impossibilita investimentos em desempenho de SEO e ferramentas de aprimoramento, afetando o ranking desses sites, atraindo menos tráfego – e assim por diante. Além disso, significa cidadãos mal informados, fazendo escolhas mal informadas”.

Google vai desativar ferramentas de editores

Atender às demandas do Google não é uma tarefa simples e as barreiras não param de aumentar.

O Google está desativando ferramentas gratuitas amplamente usadas por editores. A empresa está, por exemplo, lançando uma nova versão de sua ferramenta para medir audiência. Mas o produto é altamente focado em e-commerce, e na visão dos editores, não funciona para o jornalismo. O Google Analytics atual, provavelmente a ferramenta de análise de tráfego mais usada pelas redações no mundo todo, será descontinuada.

Em dezembro de 2023, o Google também abandonará o relatório de usabilidade móvel do Google Search Console (lançado originalmente em 2016), a ferramenta de teste compatível com dispositivos móveis (lançada em 2016) e a API de teste compatível com dispositivos móveis.

Apesar de desligar as ferramentas, Google disse que a compatibilidade com dispositivos móveis e a usabilidade seguem sendo importantes. “Continua sendo essencial para os usuários, que estão usando dispositivos móveis mais do que nunca e, como tal, continua sendo parte de nossa orientação de experiência na página. Mas em quase dez anos desde que lançamos inicialmente este relatório, muitos outros recursos robustos para avaliar a usabilidade móvel surgiram, incluindo o Lighthouse do Chrome”.

Nos próximos meses, a ferramenta Crowdtangle, disponibilizada gratuitamente pela Meta e usada por muitas redações para mensurar a performance em redes sociais, também será encerrada.

Demissões no Google e Meta e novas prioridades

O encerramento das ferramentas pode ter relação com os cortes de equipe realizados pelo Google e Meta nos últimos meses, mas para diversos publishers, é motivo de preocupação. “Ferramentas e soluções que eram gratuitas e amplamente usadas por editores vão deixar de existir, é um sinal claro de para onde caminham essas empresas”, diz um diretor de redação.

Ainda segundo esse diretor, “o Google diz que sites que copiam o conteúdo de veículos tradicionais ficam na nossa frente e têm mais visibilidade porque são tecnicamente melhores, mas aí o Google encerra justamente as ferramentas que usamos para melhorar a performance e tentar concorrer com sites de fake news?”, questiona.

Talvez o maior indício do temor provocado pelo Google seja o receio de tantos editores de falar publicamente. Todos pediram para não terem seus nomes ou organizações citadas por medo de sofrerem represálias da plataforma.

“Não me leve a mal, mas o Google é dono da plataforma e sem ele nosso negócio morre. Eles podem fazer o que bem entenderem e ninguém está olhando. Quem pode garantir que eles não vão interferir na nossa audiência ou escolher quais notícias vão aparecer mais ou menos?”, diz um editor. “Não existe qualquer supervisão externa. Se minha audiência cair, nunca saberei se foi uma mudança do algoritmo ou algo que eu falei e eles não gostaram”.

“Se eu não estiver no Google, estarei onde, no Bing? Ninguém usa o Bing e os resultados são iguais aos do Google”, diz outro editor. Anos atrás, o Google afirmou que o Bing copiava os resultados do Google. Na época, a Microsoft negou.

Os jornalistas que no passado causavam temor em tantas empresas, agora são os que vivem aterrorizados pela ditadura do algoritmo. Para os críticos da imprensa, talvez seja uma mera ironia do destino. Porém, até que ponto ter uma única empresa controlando o que você lê, assiste e ouve pode ser um péssimo negócio com o passar do tempo.

Por outro lado, ninguém duvida que qualquer solução para o setor necessariamente passa pelas big techs. Como diz a Raposa ao Pequeno Príncipe quando se tornam amigos “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Fonte: (Valor).

 

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