Bolsonaro ficou decepcionado com resultado da eleição, mas não deveria

INSATISFEITO

Até aliados próximos ficaram impressionados.

Jair Bolsonaro (PL) em conversa com apoiadores no cercadinho do Palácio da Alvorada - Reprodução/Facebook
Jair Bolsonaro (PL) em conversa com apoiadores no cercadinho do Palácio da Alvorada Imagem: Reprodução/Facebook

Quando, ontem à noite, o presidente Jair Bolsonaro (PL) cedeu aos apelos do ex-secretário Fabio Wajngarten para falar aos jornalistas na entrada do Palácio da Alvorada, já tinha conhecimento de que seu partido, o PL, havia feito a maior bancada da Câmara (99 deputados), eleito nada menos do que 15 senadores, incluindo porta-estandartes do bolsonarismo-raiz, como Damares Silva (DF) e Marcos Pontes (SP), e ficado atrás do petista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por uma diferença três vezes menor do que haviam apontado institutos de pesquisa.

Ainda assim, Bolsonaro estava contrariado. “Ele acreditava de fato que iria passar Lula no primeiro turno”, afirma um aliado.

A reação do presidente ao resultado das urnas dá a dimensão da sua dificuldade em lidar com dados da realidade — mesmo quando a realidade lhe é favorável.

E o que a realidade mostrou ontem é que depois de quatro anos de governo Bolsonaro, o bolsonarismo não arrefeceu.

Para 51 milhões de brasileiros, não importa a forma como Bolsonaro fala ou se comporta, sua misoginia e a desfaçatez com que premiou a fisiologia no Congresso, usurpou ou tentou usurpar as instituições e tratou as quase 700 mil mortes na pandemia.

“Como é possível?”, repetem, chocados e consternados, os homens de bem.

É possível porque Bolsonaro fala a língua de milhões de brasileiros que não encontram seus valores religiosos, familiares e comportamentais refletidos nas pautas da esquerda. Que não enxergam na defesa da democracia o apelo de uma guerra santa, que são contrários à liberação do aborto e das drogas e que, assumidos ou envergonhados, veem no histrionismo do ex-capitão a redenção pela franqueza, e nas suas ideias fixas e impermeáveis à realidade as características do líder resoluto.

Como isso é possível?

“O bolsonarismo não é uma franja”, diz o cientista social Lucas de Aragão. “Mas um pedaço muito relevante da população que viu em Bolsonaro o primeiro político capaz de organizar um conservadorismo que sempre esteve latente nela”.

Bolsonaro está cinco milhões de votos atrás de Lula e tudo leva a crer que perderá as eleições.

O bolsonarismo, no entanto, como mostrou a eleição do domingo (02), sobreviverá para bem além de outubro. E não adianta só repetir que “não é possível”.

Inf. UOL

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