ECONOMIA
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Baterias permitem uso de energia solar fora do horário de geração; tecnologia entra no rol de soluções das empresas.
De segunda a sexta-feira, funcionários da empresa belga Expofrut trabalham na colheita de uvas em uma extensa plantação que a empresa mantém na região do Vale do São Francisco. São uvas de mesa de variedades distintas exportadas para os EUA, Europa e Argentina. Para manter a qualidade das frutas por mais tempo, a Expofrut recorre a um expediente comum entre os exportadores: submete as uvas a um resfriamento repentino. É uma técnica eficiente, mas cara.
Em média, a conta de luz da empresa, cujos plantios, câmaras frias e túneis de resfriamento ficam no município baiano de Casa Nova, chega a R$ 160 mil por mês.
O problema maior é o que acontece entre 17h30 e 20h30. Nesse período, a tarifa aumenta seis vezes. É uma medida do setor elétrico para desestimular o consumo de clientes de média tensão em um período de pico de demanda de eletricidade nos lares.
Para quem precisa manter máquinas funcionando, esse é pior momento do dia. Entre 35% e 40% da conta de luz da Expofrut vem dessas três horas. Para escapar dessa armadilha num período em que precisa acionar o resfriamento das uvas, a Expofrut decidiu testar uma nova saída: armazenar a energia solar para usá-la nesse horário crítico, quando não há mais sol.
Trata-se de uma tecnologia que começa a ser experimentada no Brasil. Permite que quem gera sua eletricidade por meio de placas fotovoltaicas estoque essa energia em conjuntos de baterias para usá-la à noite ou em períodos sem incidência de luz solar.
Grandes players nacionais – entre eles WEG, Moura e Unicoba – estão investindo no novo equipamento, conhecido pela sigla Bess, de Battery Energy Storage System.
As baterias, que têm capacidade média de armazenamento de quatro horas, não são exclusividade de projetos de energia solar. Começam também a entrar no radar de empresas que produzem energia eólica. Nesse caso, a energia gerada quando venta pode ser guardada e usada em momentos de calmaria. As baterias são ainda uma opção para consumidores de energia da rede, assim como para empresas do setor elétrico.
China, EUA, Alemanha, Reino Unido estão entre os países com maiores capacidades de armazenamento em baterias.
No Brasil é uma tecnologia ainda inicial. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sistemas de armazenamento de energia serão chave no futuro, principalmente para geração fotovoltaica e eólica. Ambas limpas, renováveis, porém intermitentes: só funcionam quando há sol e vento.
“Os recursos de armazenamento vão ser fundamentais no futuro do setor elétrico do Brasil”, afirmou a Aneel. “Para essa solução, estamos falando de usinas hidrelétricas reversíveis, baterias de lítio íon, entre várias outras tecnologias já desenvolvidas e em desenvolvimento, que além de guardar energia para uso posterior também são altamente flexíveis. Isso pode trazer várias vantagens aos geradores, aos consumidores e às redes de energia elétrica como um todo.
“A principal vantagem é favorecer a expansão da geração pelas fontes solar e eólica. Hoje, essas fontes já são as mais baratas e dominantes nas novas contratações, mas elas operam com intermitências e variabilidades diárias nem sempre previsíveis trazendo desafios à operação do sistema.”
Para consumidores, a perspectiva de estocar energia renovável abre portas para um cenário realmente novo: abrirem mão do sistema elétrico. “Quando chegarmos a um nível em que o preço da bateria ficar mais competitivo do que o preço da energia da rede elétrica consumidores [que têm os próprios painéis solares] poderão dizer que são um sistema autônomo e que podem viver da energia que produzem”, diz Thiago Dourado Martins, um dos superintendentes da Diretoria de Estudos de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), empresa pública que presta serviços ao Ministério das Minas e Energia.
Do ponto de vista técnico, baterias já permitiriam que residências e empresas com placas solares já ficassem autônomas do sistema elétrico. O problema é o preço.