PESQUISA
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/y/A/bsAbdKQ026NXAATBLc9A/101013582-pais-rio-de-janeiro-rj-30-10-2022-eleicoes-2022-eleicao-para-presidente-senai-de-benfi.jpg)
Modo de abordagem dos entrevistados e escolha de fatores para ponderação podem diferir resultados
As diferentes metodologias adotadas pelos institutos que realizam pesquisas de opinião pública podem contribuir para resultados não necessariamente iguais, tanto na hora da coleta dos dados quanto no momento de aplicar ponderações para corrigir eventuais desvios de amostragem. Esse é um dos principais motivos para o alerta repetido à exaustão em períodos eleitorais: de que pesquisas de diferentes empresas não são diretamente comparáveis.
O Ipec (ex-Ibope), por exemplo, colhe seus dados a partir de conversas presenciais, indo ao domicílio de cada pessoa, assim como faz a Quaest. Já o Datafolha também adota o método de entrevistas face a face, mas a partir de abordagens em pontos de grande fluxo de pessoas. O Ideia e o Ipespe fazem entrevistas por telefone, utilizando um questionário computadorizado lido por um entrevistador. Já o AtlasIntel se vale de um questionário online em suas sondagens.
Integrante da Associação Americana para Pesquisa de Opinião Pública (AAPOR), Raphael Nishimura diz que cada método “tem seus prós e contras”, pontuando que as pesquisas presenciais podem encontrar dificuldades para acessar certos grupos, como pessoas que vivem em condomínios de luxo ou o oposto, em áreas de alta periculosidade.
— Não existe um método melhor ou pior. Amostras a partir de entrevistas telefônicas ou pela internet acabam não conseguindo capturar pessoas com menor acesso à tecnologia, e você pode ter um nível de atenção menor do entrevistado, que responde à pesquisa enquanto faz outra coisa. Já nas presenciais, a figura de um entrevistador pode, em certo ponto, fazer com que as pessoas deem respostas que sejam mais ‘socialmente aceitas’, analisa Nishimura, que é também diretor de Amostragem na Universidade de Michigan.
— Claro que existe o viés de a entrevista por telefone não chegar em quem não tem um aparelho, e isso também exige mais do entrevistador. Mas a expansão da telefonia celular vem tornando esse método mais eficiente em termos metodológicos e operacionais, opina Cila Schulman, CEO do instituto Ideia.
Na quarta-feira, dia em que a Quaest divulgou nova pesquisa de avaliação do governo Lula (PT), o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, publicou questionamentos em relação aos dados utilizados pelo instituto contratado pela Genial Investimentos para fazer a ponderação da amostra por renda.
A ponderação é um mecanismo adotado pelos institutos para se certificar de que as amostras utilizadas em cada pesquisa se aproximem ao máximo do perfil populacional da região pesquisada. Funciona como um sistema de pesos, em que se atribui valores um pouco maiores ou menores para determinado grupo que teve poucos ou muitos respondentes para que, ao fim, eles estejam devidamente representados na pesquisa.
Os parâmetros mais utilizados para fazer a ponderação são sexo, idade, nível de escolaridade, e região dos entrevistados. Se, por exemplo, ao fim de uma pesquisa nacional for identificado que 60% das pessoas que responderam são mulheres, será necessário ponderar para que as respostas dos homens tenham peso um pouco maior, já que as mulheres são 51,5% da população do Brasil, segundo o último Censo.
Não são todas as empresas que utilizam a renda como fator de ponderação. O CEO da Quaest, Felipe Nunes, afirma que utiliza os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, para determinar a base com que trabalharão em cada levantamento.
Na pesquisa nacional mais recente da Quaest, o instituto considerou uma amostra em que 30% dos respondentes declaram ter renda domiciliar total de até dois salários mínimos, conforme se extrai da PNAD Contínua de 2023. Ocorre que, como alerta Nishimura, o salário mínimo passou de R$ 1.302 para R$ 1.320 em maio do ano passado. Assim, considerando o valor que entrou em vigor naquele mês, pode-se dizer que 33,2% da população com 16 anos ou mais vive em casas com renda de até dois salários mínimos.
O Ipec e o Datafolha não utilizam a renda para ponderar suas amostras. Nas últimas pesquisas nacionais dos institutos, o Ipec teve 52% dos respondentes que declararam renda familiar mensal de até dois salários mínimos, enquanto o Datafolha trabalha com até 57% dos entrevistados nessa faixa de renda.
A CEO do Ipec, Márcia Cavallari, considera que há problemas em se atribuir pesos a partir das respostas em relação à renda domiciliar, já que nem todos sabem somar quanto cada pessoa que vive em sua casa recebe por mês, e porque o respondente pode também mentir intencionalmente em relação a isso. Na PNAD Contínua, os pesquisadores do IBGE consideram diferentes questões sobre fontes de renda para avaliar a qualidade dessas informações e determinar a faixa de renda de cada domicílio.
— Já ficou mais do que provado que, ponderando ou não por renda, os resultados dos institutos mostram as mesmas tendências e com números muito próximos. A renda familiar está sujeita a flutuações em função da conjuntura econômica, é uma variável muito imprecisa. No nosso caso, a renda familiar é a declarada pelo entrevistado e é decorrente dos outros controles amostrais, inclusive a localização das entrevistas, diz Cavallari.
Nishimura afirma que as diferenças nas bases usadas na ponderação podem levar a divergências nos resultados obtidos em cada pesquisa. O especialista, porém, diz que essas distorções não são grandes, e mesmo fatores que não são considerados na ponderação de determinado instituto podem ser “corrigidos” a partir de outros aspectos dos entrevistados. Por exemplo: o nível de escolaridade é um dado que geralmente está relacionado com a renda das pessoas, então mesmo que não se pondere a partir dos ganhos mensais, é possível chegar a um universo de mesmo perfil a partir do outro fator.
— A escolha das variáveis pode ter impacto nos resultados, mas, de modo geral, não é um impacto extremamente grande. A interação entre as variáveis usadas para controle das pesquisas é capaz de suavizar essas diferenças. Acredito que seja melhor ter o controle por renda do que não ter, porque podem haver preferências muito distintas em cada faixa econômica, então é importante ter isso bem calibrado, explica.
Dentre os seis institutos citados nesta reportagem, só Quaest e AtlasIntel usam sistematicamente cotas por renda para ponderação.
Ressaltando novamente que a comparação entre pesquisas de institutos diferentes é desaconselhada, a análise das últimas sondagens sobre avaliação do governo Lula mostra resultados semelhantes. Na Quaest de julho, o presidente tem aprovação de 48% e reprovação de 18% entre os que vivem com renda familiar mensal de até dois salários mínimos. No Ipec também deste mês, o governo Lula é “bom” ou “ótimo” para 43% e “ruim” ou “péssimo” para 24%. No Datafolha de junho, essas taxas são de 42% e 24%, respectivamente. Os três institutos captaram sinais de melhora nas avaliações que os mais pobres fazem do governo.
O coordenador do comitê de opinião pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), João Francisco Meira, diz que as empresas associadas debatem periodicamente os procedimentos adotados, e assegura que os estudos do grupo são altamente confiáveis:
— Ainda temos lacunas importantes de informação do Censo do IBGE, então há questões que precisam ser resolvidas ponto a ponto para se conseguir a melhor pesquisa possível perante os dados disponíveis. A ponderação é feita em pequena escala, e temos indicações de que as diferentes técnicas adotadas para abordagem não produzem impactos muito significativos. A questão fundamental é sempre o nível de resolução do eleitor, o quanto ele está ou não decidido sobre seu voto.
O próximo ajuste que os institutos de pesquisa deverão fazer já tem data marcada: a partir do dia 20 deste mês, as empresas serão obrigadas a incluir em seus levantamentos sobre as eleições municipais os nomes de todos candidatos registrados na Justiça Eleitoral. Fonte: Agência O Globo.