COTIDIANO
As chamadas pautas de costume, tratadas quase sempre com abordagem conservadora, são comumente exploradas pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PL). Recentemente, porém, passaram a ser usadas também pela campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para, segundo o partido, “reagir aos ataques” do adversário.

As chamadas pautas de costume, tratadas quase sempre com abordagem conservadora, são comumente exploradas pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PL). Recentemente, porém, passaram a ser usadas também pela campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para, segundo o partido, “reagir aos ataques” do adversário. Questionamentos sobre legalização do aborto costumam rondar Lula, mas recaíram sobre Bolsonaro depois que uma entrevista que ele deu à revista “IstoÉ Gente”, em 2000, voltou a circular nas redes sociais.
Nela, ele diz que seu filho Jair Renan, fruto do casamento com Ana Cristina Siqueira Valle, poderia ter sido abortado se assim Ana quisesse. “Tem que ser uma decisão do casal. Já passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó”, disse na entrevista, apontando para uma foto do filho, então com pouco mais de 1 ano na idade. A reportagem mostra um lado de Bolsonaro que é problemático para seus apoiadores evangélicos que o apoiam. Apesar de se declarar católico, Bolsonaro segue as pautas evangélicas, como a criminalização do aborto, em suas propostas. Em 2018, o então candidato a presidente foi ‘batizado’ pelo pastor evangélico Everaldo Pereira nas águas do Rio Jordão. (o pastor foi preso em 2020, acusado de desvios de verba).
Bolsonaro também já foi “ungido” no Templo de Salomão, no ano seguinte, pelas mãos do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo.
A bancada evangélica e o aborto
Em 1986, a bancada evangélica na Assembleia Constituinte era formada por 33 pessoas. Na época, o grupo não se manifestou sobre o aborto legal, permitido no país em casos de estupro, anencefalia e risco de vida.
Em 2009, nas discussões sobre o Programa Nacional dos Direitos Humanos, a pauta também não sofreu represálias nem houve uma mobilização por parte das igrejas.
Para a colunista do UOL Andrea Dip, a relação de Bolsonaro com os evangélicos começou a ser construída a partir de 2014, quando o Ministério da Educação propôs inserir a discussão de gênero na pauta do Plano da Educação.
“A partir dessa narrativa ficcional, partidos e figuras políticas da extrema-direita religiosa brasileira se integraram a uma onda ultraconservadora que se erguia no mundo”, escreveu Andrea.
“E, claro, perceberam aí uma oportunidade de criar novas e poderosas alianças, sobretudo com líderes de mega igrejas. O que se vendeu aos fiéis foi o combate santo a inimigos maiores: o comunismo, as feministas, os jornalistas, os professores, os ativistas, a esquerda em geral e, sobretudo, o Partido dos Trabalhadores, nas figuras de Lula e Dilma Rousseff.”.
Foi a partir disso que Bolsonaro estruturou sua campanha, com o apoio de denominações evangélicas, assumiu cada vez mais uma ideologia extremista e formulou propostas que atendiam aos interesses religiosos de seus seguidores.
Aborto não é unanimidade entre evangélicos

Edir Macedo, o líder da Universal do Reino de Deus, por exemplo, já se mostrou várias vezes favorável ao aborto.
“Muitas mulheres têm perdido a vida em clínicas de fundo de quintal”, já declarou. Ele defendia que as mulheres fossem protegidas por uma legislação voltada à saúde pública.
Em 2007, em entrevista à “Folha de S.Paulo”, o pastor disse concordar com a prática. “O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades?”.
A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus!.
O repórter rebateu: “se Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la, como diz a Bíblia, não é contraditório apoiar o aborto?” Macedo respondeu: “A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus!”.