PERNAMBUCO
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Arcebispo emérito de Olinda e Recife é tema de uma série de reportagens especiais da TV Globo.
Religioso, poeta e humanista. Os títulos, apesar de justos, são insuficientes para traduzir quem foi Dom Helder Camara. O “Dom da Paz”, como é conhecido, morreu no dia 27 de agosto de 1999, há 25 anos, mas seu legado segue vivo até hoje nas obras sociais e projetos fundados por ele.
Um dos líderes religiosos, mais relevantes da história do país, Dom Helder teve um trabalho marcante na luta por direitos humanos, sendo um exemplo de caridade e humildade. Também fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foi bispo auxiliar no Rio de Janeiro e comandou a Arquidiocese de Olinda e Recife por 21 anos.
Para celebrar a história de Dom Helder Camara, a TV Globo preparou uma série especial de reportagens sobre a vida e trajetória do religioso. Aqui no g1, você vai conferir quem foi o arcebispo, o legado social e religioso dele e o processo de beatificação em andamento que corre no Vaticano.
Quem foi Dom Helder
Helder Pessoa Camara nasceu em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, numa família simples e numerosa. Era o 11º dos 13 filhos do jornalista e bibliotecário João e da professora da educação infantil Adelaide.
A vocação religiosa de Dom Helder se revelou desde muito cedo, graças à mãe. Helder cresceu frequentando missas aos domingos e dias santos. Teve aulas de catecismo e gostava de brincar de celebrar missas como um padre. Ainda na infância, teve a certeza do que queria fazer no resto da vida e, aos 14 anos, entrou no seminário.
“Desde pequeno, eu dizia: ‘Quero ser padre, quero ser padre’. Talvez eu nem soubesse direito o que era ser padre. Um dia, meu pai chegou e disse: ‘Meu filho, sempre […] escuto você dizer que quer ser padre. Você sabe o que é ser padre?’. […] Ele apresentou o retrato de um padre que eu achei uma coisa lindíssima, formidável. Quando ele terminou, eu disse: ‘Meu pai, é um padre assim que eu quero ser’. Pois bem, ele disse: ‘Deus te abençoe’”, contou Dom Helder em entrevista ao Bom Dia Pernambuco de 15 de agosto de 1991.
O religioso precisou de uma autorização especial do Vaticano para se ordenar padre aos 22 anos, já que não tinha a idade mínima exigida de 24 anos. Segundo o padre e historiador Tiago Oliveira Gomes, o início da trajetória do cearense como sacerdote foi influenciada pela formação conservadora no seminário.
“Ele se envolve muito nestes dois campos de atuação, educação e mundo operário, defendendo a visão católica daquela época. Ele se aproxima do integralismo e vai desagradando algumas pessoas”, declarou o estudioso.
Fundado em 1932 pelo jornalista Plínio Salgado, o integralismo foi um movimento nacionalista de extrema-direita que pregava a defesa da tradição da família e dos valores militares. Segundo o escritor, teólogo e padre Marcelo Barros, apesar do envolvimento inicial, Dom Hélder se afastou do movimento e, por vezes, precisou justificar sua mudança de pensamento.
“Ele disse: meu filho, quem tem inteligência muda, eu estou aberto a mudanças permanentemente. Eu soube mudar. O grande problema na vida é quando a gente não sabe mudar”, contou o padre Marcelo Barros em entrevista à TV Globo.
Líder da Igreja Católica em Pernambuco por mais de duas décadas (1964–1985), Dom Helder Camara foi um poeta com vasta produção, tendo escrito mais de 7 mil poesias.
“Tinha a poesia nas suas veias, no seu sangue, na sua pele. Dom Helder conversava conosco de modo poético. Vivia como poesia, se movia, ria, andava poeticamente”, afirmou o padre e teólogo Marcelo Barros.
O acervo do arcebispo reúne mais de 220 mil páginas, que estão tombadas a partir de um decreto do governo do estado. O material reúne cartas, crônicas, mensagens e discursos reunidos em mais de 300 caixas.
A preservação desse conteúdo, no entanto, foi ameaçada após o local onde estava guardado o acervo ter sido invadido em 2020. Equipamentos foram quebrados e roubados do instituto que protegia as obras.
A partir de então, foi iniciado um processo que está sendo mantido em sigilo para organização, limpeza e, posteriormente, digitalização. Segundo o historiador do Instituto Dom Helder Camara (Idhec), Felipe Xavier, o religioso tinha o costume de anotar tudo o que pensava: “É por isso que nós temos esse grande acervo”, contou.
Outras instituições também fazem parte da salvaguarda do legado literário do Dom da Paz. A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) é parceira no projeto do Idhec, tendo digitalizado 120 mil páginas e feito o tratamento de 16 mil fotos que contam a história de parte do século 20 no estado.
De acordo com a superintendente de digitalização e gestão documental da Cepe, Simone Farias, as imagens do acervo passaram a ter uma maior nitidez. “Quando a gente fala em serviço de digitalização é preservar a informação além do tempo”, afirmou.
Segundo a coordenadora do curso de história da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maria do Rosário da Silva, o material ficará à disposição de todos para que pesquisadores e pessoas que admiram a história do arcebispo “possam ter acesso de forma democrática, já que ela fica disponível como um acervo digital”, diz.
Com os 25 anos da morte do religioso, o desafio é construir um novo centro de documentação para guardar todos os arquivos em segurança. De acordo com o Idhec, o terreno já foi comprado, e a nova sede do Centro de Documentação (Cedoc) tem previsão de começar a ser construída ainda em 2024. Por Beatriz Castro, TV Globo